Desvio no PanAmericano chegou a R$ 100 milhões

2 de fevereiro de 2012 10:37

 

No dia 9 de novembro de 2010, um helicóptero decolava do alto do prédio localizado no número 2.240 da Avenida Paulista com R$ 10 milhões em dinheiro na bagagem. A quantia foi uma das últimas boladas levadas por ex-diretores do Banco PanAmericano antes de deixarem o comando da instituição, naquele mesmo dia. O relato é feito por ex-funcionários do banco, que pertenceu ao empresário e apresentador Silvio Santos até a venda do controle ao BTG Pactual, concretizada nos primeiros dias de fevereiro do ano passado. O valor supostamente sacado pelos executivos em seu último dia de suntuosa paz é apenas um décimo do que estima-se que tenha sido desviado do PanAmericano ao longo dos últimos anos. Pelo menos R$ 100 milhões repassados pelo banco aos ex-diretores foram comprovados pela auditoria interna feita pela nova administração.
 
Desses R$ 100 milhões, a maior parte entrou nos cofres das empresas mantidas pelos antigos executivos. Ao todo, R$ 76,27 milhões foram pagos a 12 ex-diretores do PanAmericano e de outras empresas do Grupo Silvio Santos entre janeiro de 2008 e novembro de 2010, quando foram descobertas as fraudes contábeis que levaram o banco a um rombo de R$ 4,3 bilhões em seu patrimônio (veja quadro ao lado).
 
Segundo a auditoria interna feita no PanAmericano, no topo da lista dos "mais bem pagos" está o ex-presidente do banco, Rafael Palladino. Por meio de duas de suas empresas – a Max Control Assessoria e Investimentos e a Max Control Evento e Promoção -, Palladino levou pelo menos R$ 19,8 milhões do PanAmericano entre janeiro de 2008 e novembro de 2010. Em segundo lugar no ranking está Luiz Sebastião Sandoval, que presidia o conselho de administração do banco, com R$ 13,7 milhões recebidos no mesmo período. Wilson Roberto de Aro, o ex-diretor financeiro da instituição, levou R$ 12,8 milhões.
 
Os R$ 76,27 milhões referem-se, supostamente, ao pagamento de salários e bônus aos executivos, feitos a pessoas jurídicas. No entanto, os contratos de prestação de serviços encontrados pela auditoria interna do PanAmericano – que, em tese, deveriam justificar essas quantias – trazem valores muito menores do que o numerário pago efetivamente aos ex-diretores.
 
Palladino, por exemplo, tinha contratos assinados entre a PanAmericano Administradora de Cartões de Crédito e suas duas empresas no montante de R$ 78.950,00 mensais cada uma – ou seja, um salário contratado de R$ 157.900,00 ao mês. Em um ano, portanto, deveria receber R$ 1,89 milhão. Na prática, recebeu R$ 6,99 milhões durante o ano de 2008 e R$ 10,69 milhões em 2009. Em 2010, ano em que o Banco Central (BC) descobriu problemas no balanço do banco, recebeu "apenas" R$ 2,19 milhões até novembro.
 
Já os contratos do PanAmericano com Luiz Sebastião Sandoval e Wilson Roberto de Aro sequer foram encontrados pela nova administração do banco. Mas os executivos certamente estariam entre os mais bem pagos do Brasil, a considerar os valores anuais recebidos por ambos de 2008 em diante. Sandoval recebeu R$ 4,7 milhões em 2008, R$ 7,28 milhões em 2009 e R$ 1,77 milhão em 2010. Aro foi remunerado com R$ 4 milhões em 2008, R$ 7,96 milhões no ano seguinte e R$ 850 mil em 2010.
 
Os valores recebidos pelo grupo de 12 executivos identificados pela auditoria interna do PanAmericano superam os R$ 76,1 milhões de lucro que o banco apurou no primeiro trimestre do ano passado, quando a nova administração começava a colocar as contas em dia. Mas não foram os únicos recursos recebidos por eles. A auditoria interna apontou saques em espécie que somaram R$ 16 milhões de 2006 a 2010 – valores não incluídos nos repasses feitos às empresas dos executivos.
 
Nesse ranking, o campeão foi o ex-diretor jurídico do banco, Luiz Augusto Teixeira de Carvalho Bruno. Bruno, conhecido internamente como o "advogado de Palladino", solicitou aos funcionários da contabilidade e da tesouraria do PanAmericano 29 saques de dinheiro ao longo de 2009, conforme apurou a auditoria. Ao todo, levou do caixa do banco o montante de R$ 8,71 milhões apenas naquele ano. Em 2010, levantou metade dessa quantia – R$ 4,41 milhões – dos cofres do banco com 16 saques. Apenas em um dia de 2010 – mais precisamente em 25 de junho – sacou R$ 1,4 milhão em espécie. Funcionários que entregavam o dinheiro aos executivos afirmaram à Polícia Federal (PF) que a justificativa era a de que os valores se referiam a "adiantamentos". No caso de Bruno, os "adiantamentos" eram levados ao segundo subsolo do prédio e colocados sempre no porta-malas do carro do executivo, conforme relatos de testemunhas à PF.
 
A "quadrilha" – como vem sendo chamado o grupo de ex-diretores do PanAmericano pelos novos funcionários do banco – teve algumas de suas operações financeiras sob a mira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Muitas delas escaparam aos olhos do órgão, responsável por identificar indícios de lavagem de dinheiro no sistema financeiro, pois a tarefa de informar saques elevados em espécie e operações suspeitas é dos próprios bancos. Testemunhas informaram à PF que os executivos os orientavam a não informar as operações ao Coaf.
 
Operações realizadas pelos ex-diretores em outros bancos, no entanto, não escaparam da mira do Coaf. Palladino, por exemplo, movimentou R$ 17,5 milhões nas contas de suas empresas no Citibank até março de 2011 – sendo que R$ 15 milhões após a descoberta das fraudes e a troca da diretoria do banco. Ainda segundo informações do Coaf, que compõem o inquérito aberto pela PF para apurar indícios de fraudes contábeis e crimes contra o sistema financeiro nacional no PanAmericano, Wilson Roberto de Aro recebeu R$ 4,9 milhões em sua conta no Citibank entre 21 de setembro e 17 de dezembro de 2010.
 
Ao contatar a criminalista Maria Elizabeth Queijo, que atua para o ex-presidente do banco Rafael Palladino, o Valor foi informado de que ela não fala com jornalistas. Procurado pela reportagem, o advogado Luiz Fernando Pacheco, que defende o ex-diretor financeiro Wilson Roberto de Aro, preferiu não se manifestar sobre o caso. David Teixeira de Azevedo, criminalista contratado pelo ex-diretor jurídico Luiz Augusto Teixeira de Carvalho Bruno, diz que o executivo jamais fez saques em espécie na tesouraria do banco. "Ele não sacou esses valores", afirma. Segundo o advogado, os saques foram feitos em nome de Bruno, mas não há assinatura dele nos registros.